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Redes de AprendizagemRedes de Aprendizagem - Apresentação à edição brasileira

Em maio de 1995 a Embratel, na época empresa estatal que detinha o monopólio das telecomunicações no Brasil, iniciou a operação comercial de acesso à internet no país, marcando o começo de uma nova etapa, quando o acesso, até então restrito basicamente a uma pequena parte da comunidade acadêmica, passou a estar ao alcance de qualquer pessoa que dispusesse de um computador e de recursos para pagar os serviços de um provedor. No final daquele mesmo ano, o número de usuários de internet no Brasil chegava a 80 mil pessoas.

Ainda naquele ano era publicado nos Estados Unidos um livro que se tornaria um clássico da educação on-line – Redes de aprendizagem: um guia para ensino e aprendizagem on-line, de autoria de um quarteto de pioneiros dos EUA e Canadá: Linda Harasim, Starr Roxanne Hiltz, Lucio Teles e Murray Turoff. Naquele tempo, as estimativas falavam em 20 milhões de usuários de internet nos EUA.

O ano de 1995 também marcava o aniversário de 21 anos do primeiro sistema da história desenvolvido para dar suporte à interação coletiva assíncrona on-line: o Eies, criado por Turoff e, a partir de então, usado em seus cursos no New Jersey Institute of Technology e nos primeiros programas de educação a distância mediada por computadores em rede.

Portanto, no momento em que a internet comercial brasileira dava seus primeiros passos, a educação on-line já completava mais de duas décadas, e a experiência acumulada pelos pioneiros era colocada à disposição de educadores que estavam apenas começando a utilizar redes informatizadas para ensino e aprendizagem.

Hoje, dez anos depois, estima-se que no Brasil sejamos em torno de 20 milhões de usuários de internet. Uma primeira leva de pioneiros já acumula em nosso país alguma experiência em educação on-line. Vivemos aqui condições relativamente próximas daquelas vividas nos EUA quando da aparição da primeira edição de Redes de aprendizagem. Bastaria isso para que considerássemos muito oportuno o lançamento da edição brasileira deste clássico.

Outras razões, porém, somam-se a essa para justificar a oportunidade da iniciativa da Editora Senac São Paulo. E elas estão relacionadas ao que aconteceu nestes últimos 10 anos na internet em geral e na educação on-line em particular.

A história da educação on-line aparece claramente marcada por dois períodos. O primeiro vai da criação do Eies até meados dos anos 1990. É a era dos pioneiros, um tempo em que inovação tecnológica e inovação pedagógica caminhavam lado a lado. Pioneiros como os autores de Redes de aprendizagem utilizavam as novas tecnologias de redes informatizadas para romper com o instrucionismo dominante no ensino superior, adotando e incentivando a aprendizagem colaborativa em rede. Nesse tempo a indústria da informática ainda não havia conseguido difundir seu principal insumo psicológico: a constante sensação de obsolescência no usuário. Foi somente a partir de fins dos anos 1980 e sobretudo nos anos 1990 que usuários passaram a se sentir pressionados a buscar sempre mais velocidade, mais performance, mais poder de processamento sem se perguntarem exatamente para quê. Nos primeiros anos da educação on-line, livres desse tipo de pressão, os pioneiros puderam se dedicar a exercitar mais o cérebro pedagógico que os músculos tecnológicos, submetendo as opções tecnológicas ao constante crivo dos objetivos educacionais.

O segundo período se inicia com o surgimento e a explosiva expansão inicial da World Wide Web, em meados da década passada, desaguando num movimento denominado por alguns de “invasões bárbaras” da internet, quando hordas de novos usuários desprovidos dos mais simples hábitos de higiene e civilidade digital começaram a chegar à rede. Em meio a essas levas de novatos estavam aqueles que poucos anos mais tarde viriam a provocar uma das mais fantásticas ilusões da história da economia, a chamada “bolha especulativa pontocom”. Na sua raiz estava uma atitude de profunda admiração (na verdade, grande deslumbramento) diante da tecnologia, combinada com a perda momentânea (e em alguns casos definitiva) do mais singelo bom senso. Na educação on-line isso significou uma grande inversão: a tecnologia, que até então estivera em posição relativamente secundária, passou de coadjuvante a atriz principal e, então, a inovação tecnológica foi sendo dissociada da inovação pedagógica. Cada passo à frente em tecnologia na educação on-line passou a ser acompanhado por dois passos para trás em pedagogia, e a educação on-line, que nasceu colaborativa nas mãos dos pioneiros, passou a ser predominantemente instrucionista, rebatizada com o nome de e-Learning, num retrocesso pedagógico de pelo menos trinta anos inconscientemente inspirado pelo sonho das “máquinas de ensinar”.

Foi nesse contexto que Redes de aprendizagem acabou se transformando num marco da educação on-line colaborativa. No meio da deslumbrada e insensata gritaria que alardeava mais “uma nova plataforma” atrás de outra e investimentos bilionários em bibliotecas de material auto-instrucional anunciadas como “universidades corporativas” uma voz segura, a voz da experiência, podia ser ouvida. Redes de aprendizagem tornou-se referência para aqueles que acreditam que educação é mais que transmissão de informação, que aprender é mais que memorizar conteúdos. Não é um livro para deslumbrados com a tecnologia: nele o leitor não encontrará uma linha sequer sobre como construir e ornamentar páginas da web, nem como criar animações em Flash ou desenvolver material didático digital conforme os padrões Scorm ou AICC. O próprio título define o foco da obra: Redes de aprendizagem, definidas pelos autores como “comunidades de alunos que trabalham juntos no ambiente on-line”, ou ainda como “grupos de pessoas que utilizam as redes de comunicação mediada por computador para aprender juntas, no horário, no local e no ritmo mais adequados para elas mesmas e para a tarefa em questão”.

Um clássico se reconhece pela sua capacidade de permanecer atual por longo tempo. Se é verdade que algumas referências tecnológicas são datadas (quem atualmente usa Gopher ou Archie e quantas pessoas hoje podem dizer que utilizam Telnet diariamente?) e alguns dos programas e projetos descritos não existem mais, a ênfase colaborativa que perpassa Redes de aprendizagem não poderia ser mais adequada a este momento da história da educação on-line no Brasil em que o instrucionismo e o conteudismo ainda pautam muitas ações. Redes de aprendizagem oferece orientações seguras, baseadas em décadas de experiência na condução de cursos e acompanhamento de turmas on-line, um guia prático e ao mesmo tempo teoricamente bem fundamentado para a atuação de professores e educadores no planejamento e na execução de cursos e programas educacionais baseados em aprendizagem colaborativa, a partir de agora disponível ao leitor de língua portuguesa. Que sua leitura e a difusão das idéias aqui expostas ajudem a acelerar o amadurecimento desse campo em nosso país.

Wilson Azevedo

 

Diretor da Aquifolium Educacional (http://www.aquifolium.com.br), sócio e ex-diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância – Abed (http://www.abed.org.br).


 

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