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ANO III - Nº 634 - QUINTA-FEIRA, 03 DE AGOSTO DE 2000 A educação on-line sem ilusões
Wilson Azevêdo *
Sob o
interessante título de Webucation a matéria de capa da Forbes de 15
de maio passado concluía de maneira provocativa que o
business-to-consumers (B2C) já pode ser considerado coisa do
passado. O futuro agora estaria na education-to-business (E2B) e
education-to-consumers (E2C). Vista há até pouco tempo como uma
espécie de estepe do ensino ou uma educação 'de segunda categoria',
a educação a distância (EaD) começa a despertar a atenção de
investidores e empreendedores, principalmente em sua mais recente
modalidade, a chamada educação on-line.
Na educação a
distância on-line temos três possibilidades de comunicação reunidas
numa só mídia: a comunicação de um-para-muitos, de um-para-um e,
sobretudo, de muitos-para-muitos. Estamos diante de uma tecnologia
que permite recursos impensáveis em outras modalidades de EaD
baseadas em outras tecnologias, algo como a formação de comunidades
virtuais de aprendizagem colaborativa: pode-se experimentar aprender
a distância junto com outros, interagindo com muitos,
independentemente da hora e do lugar de cada um.
Por isto a
educação on-line vem exigindo o desenvolvimento de um modelo
pedagógico específico em que aprender a aprender de maneira
colaborativa em rede é mais importante do que aprender a aprender
sozinho, por conta própria. Ela requer, portanto, um novo tipo de
aluno, o aluno on-line. Mas demanda também um novo tipo de
professor, um professor on-line que não se limite a saber 'mexer com
o computador', navegar na web ou usar o e-mail nem a dominar um
conteúdo ou técnicas didáticas, mas seja especialmente capaz de
mobilizar e manter motivada uma comunidade virtual de aprendizes em
torno da sua própria aprendizagem.
Esse novo aluno e esse
novo professor precisam ser capacitados e aperfeiçoados
continuamente nessa nova área de prática educativa. Não se faz isto
de um dia para o outro. É algo que a sociedade vai precisar promover
por muitos anos. O desafio é imenso. Por isso é preciso olhar com
certa desconfiança algumas iniciativas que tratam a educação on-line
como se fosse ou apenas outra maneira de se fazer educação a
distância convencional, ou apenas a mera transposição da velha sala
de aula para o mundo virtual. Especialmente aquelas iniciativas que
pensam ser isto uma questão de se desenvolver apenas o hardware, a
conectividade ou o software especializados para educação a distância
via web. Muitos recursos vêm sendo investidos nesses elementos - e é
realmente importante que continuem sendo investidos. Mas estes não
representam nem todo o investimento necessário nem o mais
importante. O momento atual exige investimentos pesados em
peopleware, isto é, em recursos humanos para a educação on-line.
Esta é a maior limitação enfrentada hoje no desenvolvimento de
programas de educação on-line, no Brasil e no mundo.
É por
isso que não podemos nos iludir com falsas promessas: educação
on-line de qualidade pode não ser nem tão barata nem tão lucrativa
quanto se imagina. A EaD convencional investe no desenvolvimento,
reprodução e distribuição de material e na atuação de equipes
pedagógicas de apoio (a chamada tutoria) - um investimento muito
maior nos primeiros que na última. E baseia sua economia no ganho em
escala, na possibilidade de empregar esse material, com o suporte de
uma tutoria, em um grande número de alunos. Em toda parte, porém,
esse modelo começa a viver sua crise, pois o ganho em escala está
diminuindo, não por retração de mercado, pelo contrário: o número de
alunos somente tende a aumentar. É o tempo de vida útil do material
didático que tende a diminuir em todos os campos do saber, pela
obsolescência acelerada da informação e do conhecimento
característica desta virada de milênio.
Porém, EaD on-line
de qualidade deve investir muito mais em recursos humanos. Os custos
de reprodução e distribuição de material digital são infinitamente
menores que os do material impresso. Mas os custos docentes são nela
crescentes, pois EaD on-line de qualidade, ao contrário do que se
pensa, não prescinde do professor. Simplesmente não é possível fazer
EaD on-line de qualidade com uma pequena equipe de tutores cobrando
exercícios e tarefas de milhares de estudantes e confiando na
automatização de rotinas didáticas via software. Isso seria apenas
uma inadequada e equivocada transposição do modelo convencional de
EaD para o ambiente on-line, ignorando justamente a grande novidade
desse meio, a possibilidade da aprendizagem colaborativa a
distância. Educação on-line de qualidade requer muitas horas-aula de
educadores on-line capazes, especializados em animação de
comunidades virtuais de aprendizagem colaborativa. Isto não é barato
- nem pode ser...
Questões como estas serão debatidas de 7 a
14 deste mês no seminário virtual Panorama Atual da Educação a
Distância no Brasil, evento on-line que pode ser acompanhado
inteiramente via Internet no endereço
http://www.aquifolium.com.br/educacional/. Vivemos um momento
fecundo da História, de mudança de paradigmas, inclusive na
educação. Essas mudanças têm implicações mais profundas que uma
simples troca do vídeo pelo CD-ROM ou da página impressa pela
home-page. O momento atual exige clareza nessa percepção.
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Consultor educacional da Confederação Nacional da Indústria e
diretor técnico-pedagógico da Aquifolium Educacional
© GAZETA
MERCANTIL
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