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EDUCAÇÃO ONLINE

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Artigos

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NA UNIVERSIDADE DO SÉCULO XXI
PGM 4 - Texto 2 - Tecnologias e materiais didáticos nos cursos superiores a distância: promovendo a aprendizagem por meio da interatividade
Wilson Azevedo
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EDUCAÇÃO ONLINE PARA A QUALIDADE 1
Em 2003, vivemos, no ensino superior no Brasil, o duplo desafio da quantidade e da qualidade. Temos atualmente um grande e crescente contingente de jovens egressos do nível médio para ser atendido por uma universidade acostumada a lidar com uma reduzida elite, uma parcela muito pequena da população. É preciso, portanto, aumentar a capacidade do sistema de ensino superior para atender a esta demanda, mas ao mesmo tempo isto deve ser feito sem o sacrifício da qualidade do ensino e da formação profissional. É um grande desafio, e para enfrentá-lo as instituições de ensino superior e o Ministério da Educação vêm buscando saídas e alternativas. Entre as várias soluções imaginadas e propostas, uma é freqüentemente lembrada: a Educação a Distância (EAD).

Quase sempre a Educação a Distância é colocada como uma solução para o desafio da quantidade. Argumenta-se que, para atender grandes contingentes de alunos com custos unitários mais reduzidos, a Educação a Distância seria a grande solução, pois permitiria incluir no sistema educacional superior mais gente sem a necessidade de construir e/ou ampliar campi universitários. Não desejo me aprofundar muito nesta questão, mas desde já gostaria de lembrar o que já escrevi justamente para o programa Salto para o Futuro:

Simplesmente não é possível fazer EAD online DE QUALIDADE com uma pequena equipe de tutores cobrando exercícios e tarefas de milhares de estudantes e confiando na automatização de rotinas didáticas via software. Isto seria apenas uma inadequada e equivocada transposição do modelo convencional de EAD para o novo meio, ignorando justamente a novidade deste meio. Educação online DE QUALIDADE requer muitas horas/aula de educadores online capazes, especializados em animação de comunidades virtuais de aprendizagem colaborativa. E isto não é barato – e nem pode ser (...)3 

Portanto, Educação a Distância, especialmente em sua modalidade online, pode não ser a melhor solução para reduzir custos. Mas certamente é uma solução para ampliar a capacidade de inclusão do sistema de ensino superior. No entanto, gostaria de argumentar neste texto numa outra direção: quero sugerir que, mais do que uma solução para o desafio quantitativo, a Educação a Distância, notadamente a sua modalidade online, é a melhor solução para o que talvez seja o mais dramático desafio a ser enfrentado no contexto atual: o qualitativo. Oferecer recursos e condições para não apenas manter, como principalmente elevar o nível do ensino nas instituições de ensino superior é a principal contribuição que a educação online pode dar neste momento.

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Para alguns isto pode soar estranho, pois ainda se perguntam acerca da qualidade da Educação a Distância: poderia um curso a distância oferecer a mesma qualidade de experiência e de resultados de aprendizagem que cursos presenciais podem oferecer? Antes de tentar responder a esta dúvida, eu gostaria de procurar compreender de onde ela vem, em que contexto e condições ela floresce.

Neste ponto, preciso dizer com todas as letras: esta é uma pergunta que surge fundamentalmente da ignorância e do preconceito que a ignorância alimenta. Não há aqui nenhuma conotação pejorativa para o termo: “ignorância”, que está sendo usado em seu sentido preciso, referindo-se à ausência de conhecimento e de experiência pessoal com EAD. O sistema educacional superior brasileiro tem sido, por décadas, exclusiva, absoluta e totalmente presencial. Gerações e gerações de profissionais, inclusive educadores, vêm sendo formados sem um segundo sequer de carga horária a distância. É desta ignorância, desta falta de experiência própria, deste desconhecimento generalizado, que brota a dúvida sobre a qualidade da EAD. Em países cujo sistema educacional, inclusive o de nível superior, funciona em modo dual, presencial e a distância, esta dúvida não se coloca: a experiência social com EAD em todos os níveis está amplamente difundida e todos sabem, por experiência própria, que educação a distância pode ser tão boa quanto, ou mesmo melhor que a exclusivamente presencial. Mas não é nosso caso aqui no Brasil. Aqui, nossa experiência so­cial com EAD é próxima de zero e só não é nula porque uma parcela da população brasileira, especialmente nas camadas menos favorecidas, vem sendo atendida de forma supletiva por esta modalidade de ensino.

Aliás, este caráter supletivo da EAD que vem sendo desenvolvida no Brasil desde algumas décadas é também fonte de preconceito: alimenta na sociedade a impressão de que EAD é uma forma de cobrir lacunas, ativada apenas quando outros recursos falham, como uma espécie de “estepe do ensino”. Tudo isto forma um caldo de cultura, uma cultura do preconceito para com a Educação a Distância.A principal forma de vencer este preconceito é reduzir o nível da ignorância generalizada com respeito à EAD.

Precisamos antes de tudo reconhecer: nós todos que fomos formados em cursos exclusiva, absoluta e totalmente presenciais, sem um segundo sequer de carga horária não-presencial, nós todos ignoramos o que é EAD. Não conhecemos o que é isto. Não possuímos nenhuma experiência pessoal com isto. Não temos, portanto, condições de imaginar ou mesmo pressupor se é pior, igual ou melhor do que aquilo que conhecemos. Nós simplesmente ignoramos. Repitamos isto para tentar catarticamente exorcizar este preconceito: ignoramos o que é EAD!

Mas, felizmente, não precisamos permanecer nesta ignorância. Praticada há décadas em vários países em todos os níveis de ensino, a Educação a Distância vem sendo investigada e pesquisada amplamente, sob diversos enfoques disciplinares e interdisciplinares, gerando uma razoável massa de dados e resultados. Também a prática aperfeiçoada através de décadas de experiência em vários países e diversos contextos sociais e culturais tem permitido a organização de um respeitável corpus metodológico. Este processo de pesquisa e aperfeiçoamento contínuos prossegue à medida que novas tecnologias são incorporadas, construindo sobre um terreno sedimentado por décadas de história de uma área que, apesar de recente, já não pode ser considerada tão nova. Não precisamos mais ignorar aquilo que não conhecemos por experiência própria. Mais ainda: não temos mais o direito de permanecer na ignorância e no preconceito. Podemos e devemos investigar a história da EAD e a extensa produção acadêmica em nível mundial já organizada em uma literatura especializada, inclusive com seus “clássicos”. Não precisamos mais – e nem temos mais o direito de – permanecer no terreno dos “achismos”: podemos e devemos procurar embasar nossas impressões e opiniões sobre EAD em algo mais sólido que nossa ignorância pessoal, podemos e devemos conhecer e citar a literatura especializada.

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Entre especialistas e pesquisadores de Educação a Distância a pergunta sobre se um curso a distância pode ser melhor, igual ou pior que um curso exclusivamente presencial já não se coloca mais. O volume de estudos comparativos, concluindo não haver diferença significativa de qualidade de resultados de aprendizagem entre as várias modalidades, é tão grande que acabou se tornando ele mesmo objeto de estudo. Um livro e um site na Internet (“The No Significant Difference Phenomenon”) que o prolonga publicam as conclusões de pesquisas, iniciadas ainda na década de 20 do século passado, todas concluindo por isto. No meio especializado a pergunta não é mais “é tão bom quanto, pior ou melhor?”, mas sim “como pode ser ainda melhor?”. Não precisamos inventar a roda nem descobrir o fogo: podemos começar a trabalhar a partir e com base nas descobertas e conquistas já consolidadas.

É justamente aqui que se coloca o potencial da Educação a Distância, especialmente em sua modalidade online, para a elevação da qualidade da aprendizagem em nível superior. Um dos mais respeitados especialistas mundiais em EAD, Michael Moore (que não devemos confundir com o documentarista ganhador do Oscar), destaca em sua “Teoria da Distância Transacional” (In: Revista Brasileira de Aprendizagem Aberta e a Distância, v. 1 n. 1, disponível em http://www.abed.org.br/red/) como, ao longo dos tempos, a Educação a Distância destilou um conjunto de recursos, métodos e abordagens para promover a proximidade afetiva, cognitiva, comunicacional e relacional, mesmo em situações de grandes distâncias físico-geográficas. A promoção de elevados graus de proximidade transacional é uma conquista da EAD que agora pode ser posta à disposição da educação em geral, especialmente daquela que mais sofre com as terríveis e altamente excludentes limitações impostas pela restrição à temporalidade exclusivamente síncrona: o ensino absolutamente presencial.

Aqui é preciso novamente reconhecer nossa profunda e abissal ignorância. Como na experiência pessoal de nossa formação superior, ignoramos por completo qualquer outro regime temporal que não o exclusivamente síncrono, temos dificuldade de imaginar como pode funcionar a comunicação humana em outro regime temporal, o assíncrono, e especialmente como é possível obter maior grau de proximidade afetiva e relacional em outra temporalidade que não a exclusivamente síncrona. Mais uma vez esta nossa ignorância é desculpável e compreensível, mas é indesculpável permanecer nela daqui para frente, principalmente porque precisamente tem sido através das redes informatizadas de aprendizagem assíncrona (asynchronous learning networks - ALN) que a educação online tem proporcionado os melhores resultados e as melhores experiências. Desde o primeiro curso, conduzido por Murray Turoff na segunda metade da década de 70 do século passado com uso de recursos de interação coletiva assíncrona combinados com encontros presenciais síncronos, são perceptíveis os saltos qualitativos que a educação online pode proporcionar ao ensino anteriormente baseado no paradigma exclusiva, absoluta e totalmente presencial.

Duas observações devem ser feitas nesta altura. Primeiramente, devemos notar que a pioneira aplicação de recursos de educação online se deu em um curso semipresencial. Aliás, justamente esta aplicação tornou semipresencial o curso ministrado por Turoff. E isto faz quase 30 anos. Educação online, portanto, não é coisa assim tão nova quanto à primeira vista se poderia supor. Já existe uma história que não devemos ignorar. Não é possível imaginar que educação online seja coisa de 5 ou 8 anos apenas.

A segunda observação diz respeito ao modelo pedagógico. Nas suas primeiras aplicações, entre seus pioneiros, a educação online seguia um modelo colaborativo. Podemos dizer que a educação online nasceu colaborativa, como uma inovação tecnológica que dava suporte à inovação pedagógica. É importante destacar isto hoje porque, depois desta origem colaborativa, principalmente de alguns poucos anos para cá, passou-se a adotar inovação tecnológica para suportar práticas pedagógicas anacrônicas e inadequadas às novas demandas da economia do conhecimento – dando origem a uma espécie de “vanguarda tecnológica do atraso pedagógico”. Mas nas suas origens, em educação online, a inovação tecnológica acompanhava a inovação pedagógica. Os pioneiros da educação online adotaram a colaboração como estratégia pedagógica não por um capricho: como demonstrou Keneth Bruffee (In: Collaborative Learning, p. 111-130), há uma certa “homologia estrutural” entre o funcionamento das redes de computadores constituídas por máquinas e dispositivos de software que sustentam como que uma espécie de conversa entre si, e o funcionamento das redes humanas de colaboração, especialmente de aprendizagem colaborativa, baseadas na conversação humana.

Esta adequação da educação online à aprendizagem colaborativa e a adequação desta às demandas educacionais da economia do conhecimento contrastam com a abordagem pedagógica ainda hoje predominante no ensino superior. No ensino superior, além de predominar o modelo exclusiva, absoluta e totalmente presencial, predomina também uma prática metodológica quase que exclusivamente expositiva. Embora o novo contexto cultural-econômico-social demande cada vez mais competências e habilidades colaborativas, a abordagem expositiva instrucionista prevalece na imensa maioria do que constitui hoje a prática de ensino superior no Brasil.

É aqui que a educação online pode dar uma grande contribuição. Sua adoção no próprio ensino presencial, transformado a partir daí em semipresencial, pode representar uma dupla inovação, tecnológica e pedagógica, com alto potencial para elevar a qualidade da educação, rompendo com o quase monopólio das metodologias expositivas e instrucionistas e promovendo uma experiência de aprendizagem mais enriquecedora para os indivíduos e mais adequada às necessidades da sociedade da informação, a aprendizagem colaborativa. A virtualização de parte da carga horária, com a inclusão de atividades colaborativas online assíncronas em cursos até então exclusivamente presenciais, pode ser, como já está sendo em várias instituições de ensino no mundo (segundo pesquisa divulgada recentemente em palestra proferida no X Congresso Internacional de Educação a Distância da ABED pela profa. Linda Harasim, pioneira da educação online no Canadá – disponível na Web em http://www.sfu.ca/~bmdaly/Brazil_Slides_Edited2.ppt), uma excelente estratégia para elevar a qualidade do ensino superior.

Mas esta elevação da qualidade não é resultado automático garantido. Para que isto aconteça, é necessário capacitar PEDAGOGICAMENTE professores de nível superior para a utilização, em seu trabalho docente, de recursos de educação online colaborativa. Esta capacitação pedagógica já seria em si uma grande conquista, posto que nem para o ensino presencial professores universitários são convenientemente preparados.

Estrategicamente, a virtualização de parte da carga horária de cursos exclusivamente presenciais talvez seja uma maneira de finalmente capacitar pedagogicamente professores de nível superior. Em muitos casos, talvez mesmo para a maioria, seria esta a oportunidade de, pela primeira vez em toda sua carreira, um professor universitário refletir sobre o que é aprender e ensinar, e preparar-se adequadamente para lecionar. A qualidade da educação superior somente tem a ganhar com isto.

O duplo desafio da quantidade com qualidade no ensino superior está posto. Para enfrentá-lo, é preciso empregar os recursos que estão a nosso alcance. Dentre estes recursos, poucos serão tão promissores e eficazes para a ampliação da capacidade de atendimento do ensino superior e para a melhoria da sua qualidade quanto a educação online colaborativa. Se desejarmos sair do impasse representado pelas alternativas mutuamente excludentes (quantidade X qualidade) e partir para abordagens mais inclusivas (quantidade + qualidade), é para a educação online colaborativa que devemos dirigir nossa atenção.

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NOTAS:

1 N. do A.: Uma versão atualizada deste artigo poderá ser encontrada no endereço:
http://www.aquifolium.com.br/educacional/artigos/spof2.html.
2 Diretor técnico-pedagógico da Aquifolium Educacional.
www.aquifolium.com.br/educacional
3 Panorama Atual da Educação a Distância no Brasil
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