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COMUNIDADES
VIRTUAIS PRECISAM DE ANIMADORES DA INTELIGÊNCIA COLETIVA
Entrevista
concedida ao portal da UVB (Universidade Virtual Brasileira)
Wilson
Azevedo
Wilson
Azevedo é diretor da
Aquifolim
Educacional e consultor técnico-pedagógico do Senai.
Nesta entrevista exclusiva à uvb.br, afirma que comunidades
virtuais precisam de animadores, não de normas. "O
segredo não está nem em normas, nem em tecnologia, está
em pessoas, educadores capacitados para atuarem como animadores
da inteligência coletiva em comunidades virtuais."
UVB.BR
- A adaptação de um estudante
ao ambiente virtual de estudo é fácil? Quais as maiores
dificuldades e causas?
Wilson
Azevedo - Nenhuma adaptação pode ser
caracterizada como "fácil". Qualquer processo
de adaptação envolve o ser humano como um todo. Não se trata
apenas de "saber mexer", mas de sentir-se à vontade,
e isto envolve aspectos sócio-afetivos, além de cognitivos
e psico-motores.
A
adaptação de estudantes ao ambiente virtual vai além do
mero adestramento técnico-operacional. O ambiente on-line
caracteriza-se por uma experiência com o tempo e o espaço
diversa daquela que encontramos em ambientes presenciais,
uma temporalidade multi-sincrona e um espaço fundamentalmente
comunicacional, não-físico.
Não
é uma questão de aprender a navegar na internet ou de aprender
a usar o e-mail. É uma outra temporalidade dentro da qual
o aluno precisa aprender a agendar-se e um novo espaço no
qual precisa aprender a se movimentar, uma sensação de contigüidade
sem simultaneidade que a maioria daqueles que iniciam cursos
on-line nunca experimentou antes.
Mas
é também uma outra experiência em termos de sociabilidade,
uma intensa troca interpessoal e comunitária sem o contato
face a face. Estas coordenadas temporais, espaciais e sociais
definem uma outra ecologia pedagógica à qual o estudante
precisará adaptar-se. Sem dúvida, esta adaptação não é fácil,
por mais familiarizado que o estudante esteja com o software
e o hardware.
O
maior risco é confundir este processo psico-pedagógico de
ambientação on-line com o mero adestramento técnico-operacional.
Considerar apto e ambientado um aluno apenas porque sabe
clicar nas áreas corretas da tela é não compreender os aspectos
que realmente importam num processo de ambientação on-line.
UVB.BR
- Quais as soluções possíveis
para estes problemas?
Azevedo
- A principal solução está em levar
a sério a necessidade psico-pedagógica de ambientação; está
em desenvolver um programa de ambientação com alunos que
ingressam pela primeira vez num curso on-line. Assim como
a adaptação de crianças em idade pré-escolar deve ser bem
encaminhada e quando não o é, cria problemas futuros para
o aprendizado da criança, um processo mal-sucedido de ambientação
on-line pode afetar o rendimento de alunos on-line e, por
isto, precisa ser encaminhado com todo cuidado.
Um
bom programa de ambientação deve fazer o aluno sentir o
que chamamos de "vertigem" virtual, um pouco da
tontura que a mudança de referências espaço-temporais e
sociais provoca. Neste processo de adaptação, o aluno precisa
ser acompanhado com cuidado, pois emoções são despertadas.
Em alguns casos pode ser senão doloroso, no mínimo desconfortável,
e uma equipe pedagógica deve estar apta a amparar estudantes
neste processo.
O
aluno precisa receber orientações que o auxiliem a administrar
seu tempo numa outra temporalidade, precisa experimentar
a interação entre pessoas e sentir como ela pode ser intensa,
apesar da distância e da falta de contato face a face, precisa
sentir que a comunicação face a face não representa a plenitude
comunicacional, mas também é afetada por limitações, que
comunicação, seja on-line, seja presencial, sempre importa
limitações e potencialidades. É preciso criar condições
e oportunidades para que ele vivencie isto e adapte-se a
esta ecologia pedagógica específica do mundo virtual.
Há
muito o que ser feito num programa de ambientação on-line
e nada disto tem a ver com o mero adestramento operacional.
Até macacos são capazes de aprender a tocar no lugar certo
de uma tela. Mas aprender a ser um aluno on-line mobiliza
muito mais do que o reflexo condicionado...
UVB.BR
- ...E para os professores, como se dá a migração
da aula presencial à virtual?
Azevedo
- Ela começa com a experiência de
ser aluno on-line e, portanto, de passar também por um processo
de ambientação on-line. Mas prossegue com um processo sério
de reflexão sobre o que é aprender e o que é ensinar e sobre
como isto pode acontecer on-line. Eu costumo definir este
processo como um processo de "conversão" pedagógica.
O mundo virtual é um outro mundo. Exige uma abordagem pedagógica
especifica que aproveite o que de melhor ele oferece para
o processo de ensino-aprendizagem. Não levar isto em consideração
tem resultado em cursos muito ruins. Aliás, uma grande confusão
em educação on-line tem sido chamar de "curso"
o que não é curso...
Na
educação presencial em geral temos muita clareza sobre o
que é um livro, uma apostila, e o que é um curso. Mesmo
que na capa esteja escrito, digamos, "Curso de Geometria",
ninguém imagina que ao comprar e ler o livro estará fazendo
um curso de Geometria. Um livro, mesmo que tenha o titulo
de "curso", é um livro, não um curso, e ninguém
tem o menor problema em fazer esta distinção. Todos entendemos
que ele pode ser um bom recurso didático em um curso, um
elemento auxiliar - mas não é um curso...
Não
existe esta mesma clareza quando se trata de internet. Fico
impressionado com a facilidade com que se aceita hoje que
um website com o nome de "curso" seja confundido
com um curso. Muita gente acredita que ao navegar num site
está fazendo um curso, só porque colocaram no site o nome
de curso.
Ora,
um website, mesmo que tenha o nome de "curso",
não é um curso, é uma publicação eletrônica. Pode ser um
bom recurso didático, assim como um livro. Mas não pode
ser confundido com um curso. No entanto, com muita freqüência
faz-se esta confusão. Por quê? Basicamente porque falta
reflexão séria, aprofundada, sobre o que é educação on-line,
o que é ensinar e aprender em redes informatizadas.
Professores
que não se aprofundam em educação on-line são muito facilmente
induzidos a vender gato por lebre e a atuar como autores
de apostilas eletrônicas que são empurradas para o mercado
com o nome de "curso". É preciso superar esta
"ingenuidade virtual" e amadurecer uma pedagogia
on-line.
UVB.BR
- É possível identificar o
tipo de professor que melhor se adapta ao meiovirtual?
Azevedo
- O
professor que tem maiores dificuldades para adaptar-se ao
meio virtual não é o tecnofobo ou o que tem dificuldades
de adaptação com a tecnologia. Dificuldades de adaptação
operacional são facilmente resolvidas. Quem tem mais dificuldade
de adaptar-se ao ambiente virtual de ensino-aprendizagem
é o professor que só se sente seguro quando o aluno está
calado. Sabe aquele professor que abre a aula dizendo "bom
dia" e só pára de falar quando toca o sinal indicando
o fim da aula?
Este
professor tem dificuldades com a interação social em sala
de aulas, seja ela virtual ou não. Por isto tende a utilizar
a internet da mesma maneira, sem permitir interação entre
pessoas. Seu modelo pedagógico pressupõe que sua função
principal é a de distribuição de informações, a transmissão
de conteúdos. É o tipo de professor que facilmente cai na
arapuca da "apostila-eletrônica-com-o-nome-de-curso".
O
professor que se adapta com mais facilidade é o que trabalha
de maneira cooperativa, que abre espaço para as colocações
de seus alunos, que trabalha dentro de um processo de intensa
troca mútua, comunitária, de todos com todos, alunos e professor.
Este
professor percebe melhor o imenso potencial das comunidades
virtuais de aprendizagem colaborativa. Pode até ter alguma
dificuldade inicial de apertar o botão certo e clicar no
lugar certo da tela, mas isto ele logo supera. Para este
perfil de professor a "conversão" pedagógica é
mais suave e, geralmente, mais bem-sucedida.
UVB.BR
- As
dificuldades de alunos e professores com ambientes virtuais
só serão superadas com a simplificação dos procedimentos
de uso da internet, tornando-a mais "amigável"?
Azevedo
- Não. Certamente a "superação"
de ambientes virtuais é hoje um tema importante da agenda
de discussão em torno da internet em geral. Mas não é o
único e nem o principal fator a ser considerado.
As
superação destas dificuldades requer, antes de mais nada,
que se desenvolva um sério programa de ambientação on-line.
Somente depois disto é que se pode proceder a um "ajuste
fino", com um redesenho de ambientes virtuais de ensino-aprendizagem
segundo o critério da facilidade de uso...
UVB.BR
- A educação a distância está
amarada aos ambientes virtuais de aprendizagem - programas?
Azevedo
- Não diria que está "amarrada".
Diria que alguns projetos correm o risco de ficar "amarrados"
porque partem do terrível equívoco de pensar que educação
on-line é uma questão de tecnologia. Educação on-line é
uma questão de pedagogia.
A
tecnologia é um elemento absolutamente secundário, acessório.
Mas alguns projetos colocam a carroça na frente dos bois
e tratam primeiramente de selecionar uma ferramenta de software
sem ter a menor clareza quanto ao modelo pedagógico com
o qual pretendem trabalhar. O problema, neste caso, não
está no software, mas na estreiteza de visão de quem assim
procede...
UVB.BR
- Os ambientes virtuais de
aprendizagem (programas) disponíveis hoje atendem por completo
as necessidades de alunos e professores?
Azevedo
- Não, não atendem. Percebe-se neles
um capricho exagerado no que tange ao gerenciamento e controle,
estatísticas de acesso, rastreamento da navegação do aluno
e coisas assim, e algum cuidado com ferramentas para disponibilizarão
de conteúdos. Mas evidencia-se um desleixo absoluto no trato
das ferramentas para interação comunitária on-line, sejam
assíncronas (fórum, listas), sejam sincronas (chats, videoconferência,
whiteboards virtuais). Isto é altamente revelador do modelo
pedagógico que está neles embutido, dos pressupostos pedagógicos
que orientaram seu desenvolvimento.
UVB.BR
- O que estaria faltando?
Azevedo
- Numa
palavra, falta Pedagogia. Os pacotes de software hoje disponíveis
no mercado são concebidos a partir de pressupostos pedagógicos
não explicitados e não questionados, irrefletidos; pressupostos
que hoje estão sendo amplamente criticados. Trabalham com
modelos educacionais hoje considerados superados.
Em
grande medida vale para eles a caracterização de "vanguarda
do atraso" ou, como dizem alguns especialistas, "um
passo à frente no que diz respeito à tecnologia e dois passos
atrás no que diz respeito à Pedagogia...”
UVB.BR
- Ao invés de forçar o aluno
a usar um ambiente virtual de aprendizagem, não seria melhor
deixá-lo escolher o modelo que melhor se adapta ou dimensioná-lo,
por exemplo, através da escolha de "ferramentas buffet"?
Azevedo
- Isto equivaleria a deixar que o
aluno decida, numa escola presencial, como deve ser o projeto
arquitetônico do prédio escolar. Não é o tipo de opção que
deva ser deixada à exclusiva opção do aluno. Pode-se e,
na verdade, deve-se ouvir o aluno sempre. Mas não se pode
fugir da responsabilidade de definir um projeto pedagógico
e sua conseqüência arquitetônica, presencial ou virtual,
o ambiente escolar.
Talvez
faça algum sentido deixar à livre escolha do aluno se o
projeto pedagógico pressupõe que ele será deixado isolado,
sozinho, interagindo com software, apostilas eletrônicas
ou impressas, e muito rara e eventualmente interagindo com
outras pessoas, talvez um "tutor", um estagiário
para tirar eventuais dúvidas ou corrigir alguns testes.
Num
projeto assim, faz sentido deixar o aluno escolher seu ambiente.
Afinal é ele que vai ficar ali sozinho a maior parte do
tempo mesmo. Mas se o modelo pedagógico se baseia em aprendizagem
colaborativa, estimulada por espaços de intensa interação
coletiva entre pessoas, então isto não faz muito sentido...
UVB.BR
- Os ambientes virtuais de
aprendizagem não são pouco intuitivos e/ou ergonômicos para
os alunos?
Azevedo
- Além dos problemas de natureza pedagógica,
de filosofia educacional, muitos têm este tipo de problema
de usabilidade. Mas este não é um problema exclusivo destes
ambientes ou pacotes de software. É um problema generalizado
na web.
A
web traz uma dupla marca de imaturidade: além de ser coisa
nova, é feita por profissionais muito novos, alguns recém
saídos da adolescência, que não tiveram oportunidade de
viver experiências diferenciadas no campo da comunicação
social. Por isto a imaturidade impera na web.
O
que mais se vê são sites onde tudo se mexe, tudo pisca e
tudo fala, mas que são uma impenetrável floresta para o
usuário. Um recurso tecnológico é selecionado mais em função
do gosto do desenvolvedor, do que em função das necessidades
de comunicação do site ou das facilidades que oferece ao
usuário. Um discutível critério de "beleza" ou
"sedução" acaba pesando mais que a usabilidade.
UVB.BR
- Embora os ambientes virtuais
de aprendizagem favoreçam o surgimento de comunidades virtuais,
não há instrumentos para normatizar a aprendizagem nessas
comunidades. Que instrumentos o senhor sugeriria para que
as comunidades apresentem maior aproveitamento de aprendizagem?
Azevedo
- Nenhum.
Não é uma questão de normatização. Comunidades virtuais
precisam de animadores, não de normas. Quando não dispõem
de animadores competentes, pouca coisa acontece. Quando
dispõem de elementos com boa formação, experientes e capazes
para a tarefa de animação comunitária, o aproveitamento
é altíssimo.
Não
sugiro um instrumento: sugiro pessoas bem preparadas. O
segredo não está nem em normas, nem em tecnologia, está
em pessoas, educadores capacitados para atuarem como animadores
da inteligência coletiva em comunidades virtuais...
UVB.BR
- Qual
o futuro dos ambientes virtuais de aprendizagem? Para onde
eles caminham?
Azevedo
- Não vou "descrever" um
futuro. Vou apenas apontar a direção para a qual eu gostaria
que este futuro caminhasse. Gostaria que os ambientes virtuais
de ensino-aprendizagem caminhassem para uma maior integração
entre tecnologia e educação. Gostaria que a pedagogia comandasse
o processo de desenvolvimento destes ambientes e não a informática.
Gostaria
que pudéssemos contar com bons recursos síncronos e assíncronos
para interação comunitária, bem desenhados e adaptados especificamente
a necessidades educacionais. Gostaria, enfim, que fossem
pensados e concebidos a partir de novos paradigmas educacionais,
coerentes com a nova realidade, com a nova economia e com
a nova cultura que a internet vem ajudando a fazer avançar
e disseminar.
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